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Tu te Tornas
Eternamente Responsável
 
Quando eu penso na Lili, logo encho os olhos de água. Bate uma saudade gostosa, lembrança dos tempos em que morávamos juntos num apartamento confortável e quentinho, lá no Plano Piloto. O lugar era pequeno para caber tanto amor, todo o amor que sentíamos um pelo outro e também pela nossa guardiã, a Deise*.
Eu era muito travesso. Acabei arrumando jeito de precisar de uma cirurgia na pata. Foi um atropelamento? Não lembro! Tem tanto tempo! Tanta coisa aconteceu depois disso...
Sei que da perninha não fiquei lá muito bom. Não conseguia mais dobrá-la direito. Claro que isso não me impedia de viver bem e feliz. Eu, Lili e a Deise... Que saudade! Ela era tão carinhosa, cuidava tão bem de nós. Isto é, confesso que, na ocasião, não gostei muito quando ela castrou a Lili, nem acreditei quando ela disse que era para o nosso bem, para evitar que tivéssemos filhotes que poderiam sofrer depois com o abandono... Ah! Naquela época eu nem sabia o que era o abandono, foi difícil entender. Hoje, se me perguntassem, eu ia querer que ela tivesse me castrado também. É triste imaginar que pode haver filhinhos meus por aí, passando pelo que eu passei...
Certo, certo... Estou me precipitando, desculpe. Vou explicar direitinho como tudo aconteceu.
 
 
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Um dia, a Deise precisou mudar-se para um outro imóvel e, para lá, ela só poderia levar um de nós. Coitada! Sem saber que este tipo de determinação numa convenção de condomínio não tem nenhum valor legal, ela se viu obrigada a escolher um de nós. Eu não queria estar na pele dela!!
No final, para não nos separar, ela acabou optando por conseguir um novo lar para nós dois juntos. Achou que, assim, ambos sofreríamos menos. Que ideia!!! Será que ela achava que não sentiríamos a falta dela?? Ah! Esses humanos, às vezes conseguem ter tão pouca auto-estima... São incapazes de ver o quanto são amados.
Depois de procurar um pouco, seu prazo para entregar o imóvel se esgotando, ela acabou nos deixando aos cuidados da Malvina*, empregada de uma vizinha dela. Achou que a moça gostava de nós, já que era sempre muito carinhosa conosco, quando nos encontrava em nossos passeios pela quadra. Ah! Como as aparências enganam!!
No início, a Malvina até que nos cuidava direitinho. Lá, do jeito dela, não nos deixava faltar nada. A Deise deixava a nossa ração com a Malvina, na casa de sua patroa, mas, depois, esta também se mudou e não houve mais jeito de nos entregar nosso pãozinho de cada dia.
Sem essa ajuda, a tal Malvina se mostrou como realmente era: nos colocou para fora do portão de sua casa, à nossa própria sorte!
 
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Ficamos ali, naquele lugar estranho, sem saber direito o que fazer. A Lili queria esperar, achava que a Malvina se arrependeria de ter feito algo tão cruel e idiota, que, em algum momento, lá dentro dela, o coração falaria mais alto e ela nos recolheria de volta. Ah! Como as garotas são tolas e românticas! Estava na cara que aquela mulher não tinha um coração!! Seria tão mais humano ter tentado localizar a Deise novamente e nos devolver a ela ou buscar um outro lar para nós... Mas, quando a pessoa não sabe o valor de uma vida, mesmo uma vida pequenina como a da minha querida Lili, vai mesmo optar pelo caminho mais fácil. E nem adianta dizer que, muitas vezes, o caminho mais fácil conduz ao inferno. Gente assim não acredita nem em Deus, que dirá no “outro”?
Por um tempo, fiquei ali com a Lili, cuidando dela. Depois, vi que não teria jeito e fui atrás de comida. Conheci outros prazeres, cheiros, lugares e garotas!! Muitas garotas!! Entrei em algumas brigas, apanhei, bati também, que eu sou pequeno e tenho a perna dura, mas sou um cara valente. Voltava sempre que podia para ver minha amiga. Ah! Lili! Era triste ver seu corpinho definhando, seu pelo, antes sempre tão brilhoso, agora ressecado e sujo. Uma vizinha nos dava água e comida, mas definhávamos a cada dia, provas vivas de que a rua não é lugar para cães e gatos (argh!).
Sabe? A Deise gostava de ler e ela tinha um livro fininho de um tal de Saint-Exupéry, delicioso! É, eu sei, eu sei que eu não deveria ter roído o Pequeno Príncipe dela... Mas eu era um filhote, meus dentes estavam coçando e ela o deixou ali, bem ao meu alcance... Eu lembro que, quando ela viu o estrago que  fiz, já ia brigar comigo. Eu até me encolhi, achei que ia levar uma boas pequenoprincipeadas na cabeça, mas, ao contrário, ela me pegou no colo e começou a ler em voz alta para mim. Eu fingia que prestava atenção, mas estava mesmo era pensando em como roer mais um pedacinho. Porém, teve uma frase que eu nunca mais esqueci:
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Claro que na hora não entendi nada. Pensando bem, acho que nem ela, senão, não nos teria deixado aos cuidados da Malvina.
Mas, enfim, agora eu entendo bem. Veja se concorda comigo: quando os humanos primitivos domesticaram os lobos e alguns felinos, eles nos cativaram. A partir daí, tornaram-se responsáveis por nós. Eles nos tiraram os instintos selvagens que garantiriam a nossa sobrevivência livre e independente. Hoje, quando alguém nos abandona ou mesmo quando nos vê perambulando pelas ruas e acha que vamos “saber nos virar”, certamente desconhece que nós só sabíamos nos virar antes desse primeiro encontro, quando ainda éramos uma ameaça aos homens das cavernas.
É triste, mas o que esperar de uma gente que trata tão mal os seus iguais, não educa suas crianças, desrespeita os seus velhos, agride suas mulheres? É inacreditável que ainda não estejam extintos!
Talvez a única coisa que os salve é que nem todos são assim.
Algumas pessoas tinham me visto perambulando pelas ruas, magro, sujo, doente e procuraram ajuda.
Quando vieram me buscar, foram momentos tensos! Eu tentei fugir, mas estava muito fraco e não consegui. Tentei avisar a eles que precisava ir encontrar a Lili, que ela ficaria triste se eu não voltasse, mas eles não me ouviam. Ah! Que desespero.
Fui levado para uma chácara onde havia mais um monte de cachorros e finalmente, recebi alguns cuidados: tomei banho, vacina, ganhei uma caminha quentinha e segura, comida, água, tratamento veterinário, por causa de um TVT que peguei de alguma das garotas que conheci...
Era uma vida bem boa, mas, eu só pensava na Lili. Ah! Lili!! O que seria da minha queridinha, sem mim?
Qual não foi a minha surpresa quando, de repente, ela me apareceu, trazida pela Gy, a minha mais nova guardiã?
- Lili!! - gritei. – Lilizinha! Minha Lili!!
Gritei, pulei, lambi, chorei! Ah! Que alegria, rever minha amiguinha!
Ela chegou abatida, mas parecia feliz de me rever e me explicou que a tal vizinha da Malvina, a que vinha nos alimentando, também vinha buscando ajuda para nós e contou a nossa história para muita gente. Depois, juntaram as peças desse quebra-cabeças e me trouxeram a minha Lilizinha!
 
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Puxa! Eu não podia estar mais feliz. Tinha tudo do bom e do melhor e ainda tinha a minha Lili ali, comigo. Claro que eu preferia a época em que vivemos só nós três, eu, ela e a Deise. Mas, depois de tudo o que passamos, aquilo ali era o paraíso. Inferno é a vida nas ruas. Estamos sempre sujeitos a todo tipo de violência, atropelamentos, agressões de humanos que ainda não evoluíram da época das cavernas ou de outros animais igualmente abandonados e perdidos na luta pela sobrevivência. E, se conseguimos escapar de tudo isso, ainda há a fome, a sede, o frio e as doenças... Essas coisas deixam sequelas e, no meu caso, a consequência foi uma cirrose hepática, provavelmente provocada pelos lixos que comi, antes de ser resgatado.  Um dia, acordei meio desanimado, sem apetite. Horas depois, parti, deixando para trás a minha Lili.
Pode não parecer, mas foi um final feliz, sabe? Seria muito triste ter morrido nas ruas, sem carinho, despedir-me dessa vida levando comigo a mágoa do abandono. Ter sido resgatado e bem cuidado em meus últimos meses devolveu-me a fé nos humanos, a esperança de que eles podem evoluir. E mais!! É muito bom saber que, depois de tudo o que passamos, minha Lili está lá feliz, cercada de cuidados e bons amigos.
E eu? Eu estou ótimo! Fiz amigos aqui também e minha perninha agora dobra normalmente! Muito bom!
Um dia, eu e Lili nos reencontraremos e a minha saudade passa de vez.
 
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Até lá fico por aqui, desejando que nenhum cão ou mesmo um (argh!) gato passe pelo que passei. Que todo guardião lembre-se da frase da raposa do Pequeno Príncipe e seja eternamente responsável e, se, por alguma virada do destino, precisar mesmo encontrar um novo lar para algum de nós, que o faça com muito critério, avaliando se o nosso novo guardião terá por nós o mesmo carinho que ele tem e se terá condição de nos sustentar, alimentar, vacinar, levar ao veterinário, quando necessário...
Nossa vida é tão curta! Não é justo que não seja boa!!!


* Deise e Malvina são nomes fictícios. O resto, são fatos reais.




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Nena Medeiros
Enviado por Nena Medeiros em 27/10/2011
Alterado em 27/10/2011


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