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Os Invasores da Sanca Fedida


Eis que nos deparamos com um problema: a caixa d'água, contígua ao home-theater, lança seus muitos tentáculos de tubos e conexões pela casa. Como eles precisam descer, ultrapassando a viga que não pode ser cortada, acabariam, em algum momento, passando por fora da parede. Para piorar, a ambientação do espaço também gera uma teia de fios que não puderam ser totalmente escondidos. Enfim, ao final desse imbróglio, percebemos, horrorizados, um feio emaranhado rente ao lindo forro do teto de nossa sala de TV. A solução, depois de muito pensar: uma sanca de gesso, discreta, escura como o madeiramento do telhado e cuidadosamente pintada do mesmo tom de marrom de duas das paredes. Aproveitamos as dobras do gesso para ocultar uma iluminação indireta, muito sutil, perfeita para o objetivo do cômodo.
Logo nos primeiros dias, percebemos que não estávamos sozinhos. Pelo buraco aberto na parede exterior para passagem do cabo da antena, alguns morcegos entraram em nossa sanca e fizeram dela moradia. Achamos que eles não tinham acesso ao interior da casa, presos atrás do gesso, e não incomodavam, exceto por algum ruído quase inaudível, à noite. Um dia, porém, assistia um filminho quando um deles conseguiu encontrar alguma passagem e deu algumas voltas cegas pelo quarto, antes que eu conseguisse derrubá-lo com uma almofada, pegá-lo com um saco plástico e lançá-lo pela janela. Depois desta vez, houve mais uns dois episódios, mas, ainda assim, a convivência era pacífica.
Um dia eles silenciaram. Não os ouvíamos mais. Felizes, achávamos que o problema havia acabado, que eles haviam procurado um apartamento maior, já que a família não parava de crescer.
O que não sabíamos, é que eles haviam sido desalojados por uma outra comunidade, mais numerosa e barulhenta: abelhas. Ao vê-las voando pelo quarto, decidimos fazer a coisa mais óbvia e idiota: despejar duas embalagens de inseticida pelas sancas. Fechamos a porta do quarto e ficamos ouvindo o barulho. Parecia um motor roncando até silenciar por completo. Quando entramos, fomos atacados pela culpa: promovemos um holocausto. Havia milhares de abelhas espalhadas pelo chão, no sofá, tapetes, TV, além de algumas baratas e besouros. Com o aspirador de pó eliminamos os vestígios de nosso crime e também um bocado de cocô de morcego da sanca. Por algum tempo, gozamos da paz e do silêncio. Por pouco tempo: como não tampamos a entrada da bat-caverna, passados alguns dias, ouvimos nossos inquilinos dando uma festinha para comemorar a retomada de suas dependências.
Por que não? Temos um zoológico em casa mesmo: cadelinhas e peixes são nossos bebês, calangos, quero-quero, bem-te-vis, corujas, caturritas e outros pássaros são nossa alegria, insetos, sapos, e morcegos são os indesejados bastardinhos.
Só que a estação chuvosa chegou e a umidade atingiu as fezes dos ratinhos alados e o cheiro no quarto tornou-se insuportável. Munida do aspirador de pó novamente, fui quebrando a base da sanca por toda a volta e fiz uma verdadeira faxina.
Conversamos com um amigo que nos contou que na casa dele também há um morcegódromo sobre o forro do telhado. Incomodados pelos bichos e temerosos com o risco de doenças, ele e a esposa chamaram a zoonoses. Os técnicos da instituição observaram tratar-se de uma espécie protegida e catalogaram a casa deles como habitat natural.
Para não termos o mesmo destino resolvemos nós mesmos iniciar a ação de despejo. O marido tampou o buraco da antena e eu coloquei várias bolinhas de naftalina pelos buracos abertos no gesso. O cheiro de baú da vovó misturado ao de gruta abandonada me dava ânsia de vômito.
Pelo visto, dava ânsia neles também. Por uma semana, eles saíam, voando pelo quarto. Ao todo, retiramos vinte e dois morceguinhos, dezessete vivos.
Limpei mais cocô e derramei um vidro de perfume na sanca. Agora é esperar, para ver se restou algum e rezar para que eles não encontrem outra forma de entrar. Fazer como está lá, na Bíblia: "vigiai e orai". Tenho quase certeza de que não era sobre morcegos que o Livro Sagrado estava falando, mas é pouco provável que o fedor do inferno seja muito pior do que isso.
Nena Medeiros
Enviado por Nena Medeiros em 06/01/2009
Alterado em 14/10/2010


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