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O Motoqueiro e a Velhinha


Ele ia apressado, em sua moto. Estava muito atrasado para o trabalho, mas, responsável, evitava cortar o tráfego intenso enfiando-se entre os carros e ônibus, como faziam os outros motoqueiros.
Num determinado trecho do caminho, Luiz trafegava bem na faixa da direita, quando o ônibus que ocupava a faixa central, seta ligada, começou a invadir sua pista.
Não se preocupou, podia ver o motorista no enorme espelho retrovisor do coletivo, estava certo de que também era visto.
Se estava ou não, ele nunca soube. O fato é que o enorme caixote motorizado foi pressionando-o cada vez mais contra o meio-fio, a despeito de suas buzinadas furiosas.
Também ignorando a buzina, uma velhinha estava parada na calçada esperando a oportunidade para atravessar. Muito próxima do paralelepípedo, ela olhava alguma coisa do outro lado, alheia ao embate sobre rodas que se aproximava cada vez mais.
Luiz ainda tentava equilibrar-se entre o ônibus e o meio-fio, quando a viu. Não teve mais como frear ou desviar e acabou batendo o espelho retrovisor e o guidom na pobre senhora que deu um grito de susto e caiu sentada no chão.
Com o impacto, a roda dianteira enviesou-se, batendo no meio-fio e jogando moto e motoqueiro no asfalto. Felizmente, o ônibus já havia passado.
Luiz sentou-se lentamente, apalpando-se para certificar-se de não haver quebrado nenhum osso. Em seguida, ameaçou levantar-se, virando-se para trás, para verificar se a idosa estaria machucada. Não teve chance de sair do chão. Ela já estava ao seu lado, furiosa, dava-lhe bolsadas, gritando:
- Seu motoqueiro dos infernos!! – Ele ainda estava com o capacete, mas ela o acertava nos ombros, nas costas.
- Irresponsável!! – Mais um golpe.
- Podia ter me matado!! – Novo ataque, e ele começava a achar que ela transportava um ferro de passar roupa dentro da bolsa.
Foi salvo por transeuntes e pelos ocupantes do carro que seguia logo atrás e tinham visto todo o acidente.
Nem mesmo depois de lhe explicarem os fatos, a velhinha se deu por satisfeita. Não estava ferida, mas saiu encurvadinha, resmungando, belicosamente agarrada à sua bolsa assassina.

Imagem daqui.

Nena Medeiros
Enviado por Nena Medeiros em 18/06/2008
Alterado em 25/08/2010


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